Como mencionei anteriormente, no
post de título ambigüidade, por volta de 2002 adquiri meu primeiro piano.
E é a ele que irei dedicar este texto.
Estudar piano sem piano é especialmente complicado. Qualquer professor de piano que não incentive a compra de um, pode estar negligenciando o crescimento do aluno, pois torna-se simplesmente impossível o bom desenvolvimento técnico, pois as diferenças entre um teclado e o piano são simplesmente gritantes, que ultrapassam as simples "teclas a mais".
Bom, podemos listar algumas diferenças básicas:
- Número de teclas
- Peso das teclas, devido ao sistema mecânico
- Resposta das teclas e sensibilidade
Apenas estes 3 itens já fazem toda a diferença na hora de estudar.
Algumas peças simples para piano, e a grande maioria das peças de período barroco (que definitivamente não são simples) podem ser tocadas em 5 oitavas, por terem sido concebidas para uma primeira geração de cravos e orgãos, que possuíam uma amplitude harmônica menor do que os pianos, porém o desenvolvimento técnico neste caso acaba por ser prejudicado.
Devemos levar em consideração, num primeiro momento, o peso das teclas de um piano devido ao seu sistema mecânico (êmbolos, martelos e etc), e também a sensibilidade que este sistema proporciona, sendo necessário maior preparo técnico para a alcançar a devida precisão no toque, afim de fazer com que a música soe da melhor forma possível.
Meu primeiro piano
Agora chegamos ao meu primeiro piano.
Foi comprado em uma loginha em Porto Alegre. Tenho muito a agradecer a minha mãe, que mesmo sem ter tido muitas condições para tal compra, juntou um dinheiro para completar um valor que já existia para este fim, que ficara após o falecimento do meu pai (que fazia pouco tempo que ocorrera).
Munidos de 5.000 reais na época, saímos a procura de um piano, sabendo que com este valor não conseguiria comprar o melhor, mas já poderia ter um instrumento que pelo menos proporcionaria um estudo mais abrangente.
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| Foto de meu antigo piano aberto. |
Em um anuncio no jornal, encontramos um piano da marca
Cirei em uma loja chamada
Rolads na grande Porto Alegre, por menos de 5.000 reais, que diziam estar totalmente reformado. Munidos do endereço, pegamos um ônibus e fomos a Porto Alegre.
Encontramos a loja, sentei-me ao piano, toquei, e gostei do que escutei. Tinha um som aveludado, uma boa resposta, e os fortes/fortíssimos soavam de forma brilhante. Acabamos fechando a compra do piano, pois não conseguíamos encontrar um instrumento mais barato.
Este piano me acompanhou por 6 anos, e foi importantíssimo para o estudo. Mas é claro, sempre existem problemas.
Afinação
Algo que não havia notado na loja, que notei apenas algum tempo depois dele estar em minha casa, foi a afinação. Este piano estava meio tom abaixo. Trocando em miúdos, se você apertasse a tecla DÓ, soaria um SI, se você apertasse a tecla RÉ, soaria um RÉ Bemol, por exemplo.
Isto seria muito ruim para meu ouvido, que acabou "desafinando" junto com o piano. Ainda hoje confundo-me um pouco, e não sei se estou escutando, por exemplo, um DÓ ou um SI, justamente por ter estudado 6 anos em um piano meio tom abaixo da afinação padrão.
Anos mais tarde, la por 2004, eu fui descobrir a causa disto. Desgaste da Arpa. Devido a idade do piano, as tarraxas não conseguiam mais segurar a afinação padrão, então, possivelmente optaram por baixar meio tom, cujas cordas ficam com uma pressão menor forçando menos as tarraxas.
Agora, você vai perguntar, como eu descobri isso? Da pior forma possível, afinando ele.
Em 2004 o Senhor Nilson , do Instituto de música, foi a minha casa afinar meu piano, e aproveitou e ensinou-me a afinar. Então aproveitamos e acertamos a afinação dele.
Bom, foi uma semana complicada, a afinação segurava 3 dias e sedia. Basicamente foram 15 dias até que ele começou a segurar mais a afinação. Passado um mês o piano já conseguia segurar melhor a afinação. Isto até certo ponto é normal, se você afinar um violão, por exemplo, em outra tonalidade, por umas duas semanas ele tende a "retrosseder" para a afinação antiga, tendo assim um tempo de adaptação.
Porém, como mencionei, devido ao desgaste, algumas notas teimavam em desafinar, sendo necessário assim a correção delas a cada 15 dias, ajuste este que eu mesmo conseguia fazer com uma chave improvisada, já que eu não possuía a chave de afinação.
Ajustes mecânicos
Não pense que um piano acústico vive apenas de afinação. Lembre-se que ele possui todo um sistema mecânico interno. A cada meio ano, o correto é efetuar a devida manutenção disto. Isto engloba a troca de feltros que existem nas conexões, reduzindo assim as folgas, ajustes de êmbolo, martelo e por ai vai, tudo para deixar o teclado mais preciso. Isto é necessário, para que se consiga estudar corretamente. Porém, nem todos tem dinheiro para fazer isto, e eu era um deles. A manutenção completa de um piano (afinação, ajustes e se necessário a reforma do sistema mecânico) pode ultrapassar facilmente os 500 reais.
Cupins
Qual o pianista que nunca teve medo destas pragas? Eu morava em uma casa toda de madeira, e isto foi problemático. Meu piano esteve infestado de cupins 2 vezes. A primeira vez chamamos um profissional para descupiniza-lo. Mas as pragas retornaram em menos de 1 ano. Então, a segunda vez eu mesmo fiz o trabalho.
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Uma foto bem antiga, se bem lembro-me,
estava tocando a Sonata Patética
de Beethoven |
Arredei o piano e lixei tudo. Localizei os furinhos de cupins e com uma chave verificava a profundidade do estrago. Quando o estrago era muito profundo, eu abria o buraco com a chave. Foi feito um preparado de Jimo, Naftalina e Olho queimado (diesel), que fui passando e injetando na madeira do piano todos os dias, durante duas semanas. Sim, a sala da casa estava com um cheiro horrível, mas não tinha outra opção. Após terminado isto ainda deixei assim poir quase um mês. Não tendo visto mais vestígios de cupins, fechei os buracos com uma massa especial, lixei para alinha e re-pintei.
Os cupins não incomodariam mais tão sedo, voltaram apenas 3 anos depois.
A Marca Cirei
Não encontrei muitas informações acerca desta marca. O que descobri que era natural de Porto Alegre, e que aparentemente eles fabricavam as arpas em série, o causava um indice relativamente grande de falhas. Por isto o problema de desgaste das tarrachas.
Também vim a descobrir que a madeira não era tratada, e o fatop dela ter sido cortada e utilizada antes da total secagem também faz com que seja mais propícia para os cupins.
Portanto, se alguém for comprar um piano desta marca,
muito cuidado. Compre apenas se estiver mecanicamente impecável (leia-se reformado, e verifique se não existem folgas), e se for de uma loja de confiança, que tenha feito o devido tratamento da madeira. E ainda assim, somente vale a pena por um preço bem baixo (menos de 3000 reais).